Ação evangelizadora junto aos jovens e as mulheres: uma Igreja em saída, acolhedora, inclusiva e misericordiosa
Ir. Marcus Túlio, Sch.P
Desde o Concilio Vaticano II, a Igreja é chamada a responder com coragem evangélica aos desafios do tempo presente com abertura, discernimento e coragem. Entre os inúmeros desafios, destaca-se a urgente necessidade de refletir, discernir e aprofundar a evangelização decorrente do papel dos jovens e das mulheres na Igreja. Sabe-se que ambos os grupos ainda enfrentam preconceitos, exclusão social e limitações na participação plena e frutuosa na comunidade eclesial. Daí a escolha deste tema tão atual para a Igreja.
A Igreja enquanto sinal de salvação, não pode se eximir de anunciar a Boa-Nova de Jesus Cristo àqueles que, por diferentes motivos, têm sido marginalizados. Neste sentido, é papel da Igreja fazer com que todos sejam acolhidos e valorizados, pois precisa se espelhar em Jesus Cristo, origem e fundamento da mesma. Assim como Jesus, a Igreja é convidada a ter um olhar inclusivo e misericordioso.
Neste mesmo sentido, o Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelli Gaudium (EG), nos recorda que “a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna onde há lugar para cada um com a sua vida fatigada” (EG 47). É preciso uma abordagem corajosa e profética, já que o Magistério e a reflexão teológica oferecem bases para pensar e construir uma pastoral mais integradora. Sendo assim, a proposta de uma “Igreja em saída”, presente nos pontos 20-23 da Exortação Apostólica Evagelli Gaudium, oferece horizontes para promover a dignidade, o protagonismo e a participação desses grupos, sem perder a fidelidade ao Evangelho.
Ao deter-nos com atenção e discernimento, podemos perceber que as diversas realidades pastorais nos apontam que os jovens e as mulheres se encontram nas “periferias existenciais”, termo usado pelo Papa Francisco para designar os lugares onde a dignidade humana é ferida (EG 20). A Igreja precisa reconhecer este fato, par que assim possa compreender que a evangelização não pode e nem deve se limitar a um grupo seleto que se acreditam especiais, modelos e prontos, mas o seu maior papel é alcançar todos os que necessitam de acolhida e anúncio da boa notícia da esperança cristã: Jesus Cristo.
As mulheres
Não se pode negar os pequenos avanços que a Igreja teve em relação ao papel das mulheres, mas é preciso denunciar de forma profética as mudanças que ainda precisa serem feitas. E, a Evangelii Gaudium reconhece explicitamente que ainda “é preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja” (EG 103).
Sabe-se que, ao longo da história, muitas mulheres foram relegadas a papéis secundários, embora tenham sustentado comunidades, famílias e práticas de fé. E não para no passado, ainda hoje muitas mulheres são limitadas a funções secundárias (como limpar, cozinhar e arrumar o espaço litúrgico), sofrem desvalorização de seus dons e, até mesmo, suas contribuições teológicas são colocadas em dúvida. Ignorar a perspectiva feminina na evangelização pode resultar em uma compreensão limitada do Evangelho, pois a experiência das mulheres contribui de maneira essencial para revelar sua totalidade.
A Igreja é a comunidade dos chamados e enviados a ser luz para as nações, mas não uma luz que nasce dela mesma e sim uma luz que é do Cristo e que ela é convidada a refletir. Neste sentido, deve dialogar também com as diferentes experiências do Sagrado feita por tantas mulheres. Neste sentido, a promoção do protagonismo feminino, como lugar teológico da revelação não é uma questão de justiça, mas de uma fidelidade à missão de anunciar um Deus que acolhe, cuida e se revela a todos.
Os jovens
As juventudes representam um dos grupos mais dinâmicos e desafiadores para a ação evangelizadora da Igreja. Mas, não podemos negar que também é um dos grupos mais bonitos, alegres e cheios de vida. Os jovens vivem um período bonito de descobertas, de questionamentos sobre identidade, proposito e valores. Não param na primeira resposta, querem ir além, entender o que vivem e a fé que professam. Por isso, a Igreja é chamada a anunciar o Evangelho de modo vivo, próximo e atraente. Como recorda o Papa Francisco: “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (EG 1). Se a Igreja se mantém fechada em si mesma, é como uma casa abandonada, que não chama atenção de ninguém.
Inspirados pelo Papa Francisco, dizemos muito de uma “Igreja em saída”, mas essa Igreja só acontecerá quando os que nela estão há mais tempo se encontrarem verdadeiramente com a alegria do Evangelho e, animados por essa mesma alegria forem aos encontros das juventudes e mostrarem com suas vidas que o Evangelho é capaz de transformar a vida e a sociedade.
Essa alegria, que não é superficial nem passageira, abre espaços de diálogo, participação e protagonismo juvenil. A Christus Vivit (CV) afirma que “os jovens são o agora de Deus” (CV 178), não apenas destinatários da evangelização, mas sujeitos ativos da missão de construir comunidades mais vivas e missionárias.
Evangelizar os jovens é caminhar ao lado deles, conhecendo suas experiências, acolhendo seus desafios e respeitando suas histórias, ajudando-os a descobrir que Cristo é a fonte de uma vida plena (cf. CV 132-133). Diante das influências das redes sociais, do relativismo cultural e da pressão por resultados, é essencial oferecer uma fé vivida com alegria, que desperte pertencimento e torne visível o amor concreto de Deus. Essa ação pastoral se realiza na escuta atenta, na paciência e na misericórdia, acompanhando cada jovem em seu crescimento pessoal e espiritual.
Conclusão
O reconhecimento de que jovens e mulheres frequentemente enfrentam preconceitos, exclusão e limitações na participação plena na comunidade eclesial exige uma pastoral que combine acolhimento, protagonismo e formação integral. A Evangelii Gaudium enfatiza que a Igreja deve ser capaz de dialogar com as realidades contemporâneas e oferecer uma experiência de evangelização significativa, criativa e acolhedora, lembrando que a evangelização não é apenas um anúncio de palavras, mas uma experiência de vida em comunidade, marcada pela misericórdia e inclusão.
A ação evangelizadora da Igreja junto aos jovens e às mulheres deve ser um testemunho vivo de acolhida, inclusão e misericórdia. Reconhecer suas experiências, desafios e potencialidades garante que o Evangelho alcance a todos de forma significativa. O protagonismo feminino e juvenil reflete não apenas demandas sociais, mas a missão da Igreja como sinal do Reino de Deus, promovendo dignidade, participação e esperança. Uma Igreja em saída exige coragem, criatividade e atenção pastoral frente às realidades concretas das periferias existenciais.
Abrir-se à voz e à presença de jovens e mulheres confirma a vocação da Igreja como comunidade viva e missionária. Cada pessoa é chamada a ser agente e destinatária do amor de Cristo, participando ativamente da missão evangelizadora. Assim, a evangelização torna-se uma experiência de vida plena, revelando o rosto misericordioso de Deus e fortalecendo a caminhada da humanidade rumo à comunhão e à justiça
REFERÊNCIAS
FRANCISCO. Exortação apostólica pós-sinodal Christus Vivit. Roma: 2019. Disponível em: papa-francesco_esortazione-ap_20190325_christus-vivit.pdf. Acesso em: 28 out. 2025
FRANCISCO. Exortação apostólica Evangelii Gaudium. Roma: 2013. Disponível em: papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.pdf Acesso em: 25 out. 2025.